Mutação do novo coronavírus que assusta Reino Unido e Europa já passou pelo Brasil

20/12/2020 11h27
A nova cepa do coronavírus que se propaga no sul da Inglaterra e infectou quase 1.100 pessoas nos últimos dias está sendo meticulosamente estudada por especialistas britânicos. Neste fim de ano em que a maioria dos países europeus adotou sérias restrições de circulação para evitar um aumento do contágio durante as festas de Natal e Ano-Novo, descobrir que uma variante do Sars-CoV-2 é ainda mais contagiosa do que outras só aumenta a ansiedade no continente.

A nova cepa do coronavírus que assola o Reino Unido, e faz países europeus suspenderem voos e trens provenientes do país vizinho, apresenta várias alterações genéticas. Uma delas interessa particularmente os cientistas: é a mutação N501Y, que ocorre na sequência genética que codifica uma parte altamente sensível do vírus, a proteína Spike.

Localizada na superfície do vírus, essa proteína é uma espécie de chave que se agarra à superfície das células humanas, rompendo depois esta barreira para se multiplicar. "Mudanças nesta proteína podem fazer com que o vírus se torne mais infeccioso e se espalhe mais facilmente entre as pessoas", explicou a Agência de Saúde Pública Britânica.

Essa mutação não é totalmente nova. O pesquisador Julien Tang, da Universidade de Leicester, lembra que ela já circulou no Brasil em abril, sendo observada posteriormente na Austrália, em junho, e nos Estados Unidos, em julho.


Variante mais contagiosa


Segundo o primeiro-ministro britânico, Boris Johnson, embora a nova cepa do Sars-CoV-2 seja até 70% mais contagiosa do que a anterior em circulação no país, "nada indica que ela seja mais letal, nem que cause uma forma grave da Covid-19 ou reduza a eficácia da vacinação". As autoridades britânicas decidiram endurecer o lockdown em Londres e no sudeste da Inglaterra, porque essa variante pode estar implicada na disseminação "exponencial" do vírus observada em cerca de 60 localidades.

A mutação descoberta no Reino Unido foi identificada e relatada à Organização Mundial da Saúde (OMS). Em seu site, o consórcio científico britânico que estuda as sequências genéticas do novo coronavírus, denominado Covid-19 Genomics UK (COG-UK), diz que especialistas em microbiologia e genética analisam atentamente esta variante.

Desde o aparecimento do novo coronavírus na China, no fim do ano passado, inúmeras alterações no genoma do vírus Sars-CoV-2 foram identificadas em todo o mundo. O geneticista francês Axel Kahn fala em "300.000 mutações" em sua página no Facebook. Os virologistas têm o hábito de dizer que as mutações fazem parte da "vida normal" de um vírus. Algumas delas os tornam mais resistentes a tratamentos ou vacinas, enquanto outras não têm qualquer efeito nocivo, assinalam os especialistas.

Segundo Olivier Bouchaud, chefe do serviço de doenças infecciosas do Hospital Avicennes, na região parisiense, no momento em que um vírus se reproduz podem ocorrer pequenas falhas na cópia do material genético. Ouvido pela RFI, Bouchaud explica que "na imensa maioria dos casos, esses erros não têm nenhuma influência". "Por isso, é difícil de estabelecer que o aumento de casos visto atualmente no Reino Unido esteja diretamente ligado a uma determinada mutação", afirma. "Devemos lembrar que estamos no outono-inverno, um período do ano propício à propagação do vírus, acrescentou o médico.


Mutação pode diminuir eficácia da vacina?


Apesar do grande número de mutações, o genoma do Sars-CoV-2 permanece relativamente estável, notam seus pesquisadores. O pior cenário seria descobrir mutações que prejudicassem as campanhas de imunização recém-iniciadas.

As vacinas contra a Covid-19 desenvolvidas a partir do RNA mensageiro (Pfizer/BioNTech, Moderna e Curevac) funcionam de acordo com o mesmo princípio: elas apresentam ao organismo essa proteína Spike, estimulando o sistema imunológico a produzir anticorpos em vista de um possível encontro com o coronavírus. Seriam necessárias modificações muito importantes nessa proteína Spike para prejudicar a eficácia das vacinas.

"Não estou preocupado no curto prazo porque as vacinas desenvolvidas até o momento apresentam uma boa cobertura da proteína Spike. Mesmo que um pequeno pedaço dessa proteína tenha mudado no vírus, nossos anticorpos ainda serão capazes de reconhecer o resto", disse o virologista Étienne Simon-Lorière, do Instituto Pasteur de Paris.

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