Dez bairros de Fortaleza concentram maior número de casos de Covid-19 por cinco meses seguidos

Escrito por Thatiany Nascimento, thatiany.nascimento@svm.com.br / . Atualizado às 09:10

Levantamento, baseado em boletins epidemiológicos da Prefeitura, aponta que, desde junho, a lista das áreas com mais confirmações permanece igual 

Fortaleza já tem, pelo menos, 63 mil casos confirmados de Covid-19 distribuídos nos 121 bairros. A doença está disseminada na cidade como um todo, mas há regiões cujas confirmações se mantêm mais expressivas.

Levantamento feito pelo Diário do Nordeste, com base nos boletins epidemiológicos publicados periodicamente pela Prefeitura de Fortaleza durante a pandemia, aponta que, a lista dos 10 bairros que mais têm casos da doença, pelo menos, desde junho, permanece inalterada. Embora novas infecções sejam contabilizadas nos mais diversos territórios, há cinco meses, Messejana, Meireles, Aldeota, Barra do Ceará, Centro, Mondubim, Jangurussu, Conjunto Ceará I, Passaré e Bom Jardim, seguem na dianteira dos registros.

Os dados considerados pelo Diário do Nordeste constam nos boletins epidemiológicos publicados nos dias 22 de abril (primeiro com registro por bairros), 19 de junho, 14 de agosto, 16 de outubro e 13 de novembro. O intervalo estabelecido foi de cerca de 2 meses entre uma publicação e outra, exceto no do dia 13 de novembro, que, até o momento, é o documento do tipo mais atual disponível. 

Até a data, Messejana era o bairro com o maior número absoluto de casos de Covid, com 2.031 registros.
Em seguida, constam os bairros Meireles (2.023), Aldeota (1.828), Barra do Ceará (1.297), Centro (1.067), Mondubim(1.001), Jangurussu (921), Conjunto Ceará I (908), Passaré (891) e Bom Jardim (855). No início da pandemia, conforme já publicizado, além da Aldeota e Meireles, os casos da doença se concentram também em outros bairros nobres como, Cocó, Dionísio Torres e Bairro de Fátima.

Na Aldeota, a servidora pública aposentada, Liduína Elizabeth Angelim Gomes da Silva, de 63 anos, relata que foi diagnóstica com Covid em setembro. Ela acredita que tenha sido contaminada pelo marido, que confirmou a doença no fim de agosto. "Ele ficou doente e ficou isolado em uma suíte, mas terminou que eu peguei também", afirma. De acordo com ela, a doença se manifestou de forma mais grave no seu organismo que no do marido e ela precisou até de internação. Foram sete dias hospitalizada.

"Eu fiquei muito frágil. A doença, além da coisa física, abala muito o emocional. Tive muito medo de morrer, de ficar entubada. Eu não dormia. Mas me recuperei, vim para casa e fui melhorando", conta. De acordo com ela, somente no prédio em que mora, um casal de idosos também foi contaminado e se recuperou e em outro bloco, uma mãe e um filho morreram da doença.

Do outro lado da cidade, no Mondubim, bairro que tem o 6º maior número de casos absolutos da doença, o agente comunitário, Edilson Ferreira, de 70 anos, conta que os primeiros sintomas que teve da doença foram: dor de cabeça, febre alta e dor no corpo. Edilson, além de idoso, é hipertenso, e explica que esse foi um dos motivos de maior apreensão. No bairro, até o dia 13 de novembro, 1.001 pessoas foram infectadas pelo coronavírus.

Causas

O Diário do Nordeste contactou a Secretaria Municipal de Saúde (SMS) para abordar o assunto, mas até o fechamento desta edição não teve retorno.

Uma das possíveis justificativas para a predominância nesses bairros reside no fato de que alguns deles são também os mais populosos. Barra do Ceará, Mondubim, Jangurussu, Aldeota e Messejana estão na lista dos 10 bairros com mais habitantes. Essa foi uma das questões enviadas à SMS.

Questionado sobre essa possibilidade, o professor do Departamento de Saúde Comunitária da Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Ceará (UFC), Carlos Henrique Alencar, avalia que, a partir dos dados, "não se pode chegar a uma conclusão, mas algumas hipóteses podem ser levantadas. Bairros como Meireles, Aldeota e Centro são polos de comércio e recebem um elevado contingente de pessoas que, muitas vezes, vem de outros bairros periféricos, como Barra do Ceará e Messejana".

Além disso, foi indagado se, sabendo dos índices altos nessas regiões, a Prefeitura deveria aplicar ações específicas nesses bairros ou se o fato de a doença ocorrer na cidade toda e ter uma alta capilaridade, nesse momento epidemiológico, descarta ações mais direcionadas.

Conforme o pesquisador, na atual situação, "em relação à retomada após a quarentena, a dinâmica de movimentação na cidade está praticamente igual, se comparada ao período anterior à pandemia. Diante disso, bastaria uma pessoa doente e sem usar as medidas de prevenção em um transporte público, como um ônibus, para que a transmissão da doença volte a se espalhar por toda a cidade. Sendo assim, as ações de controle devem ser feitas de forma uniforme em toda a cidade, bem como as ações de prevenção".

De acordo com Carlos Henrique, isso aumenta o desafio da gestão municipal, pois "em áreas com baixa transmissão, as pessoas naturalmente se sentem protegidas e acabam por não usarem as medidas de prevenção de forma correta. Passam a não usar máscaras faciais, esquecem de lavar as mãos periodicamente ou mesmo fazem contato direto com outras pessoas, fazendo com que haja uma facilidade maior para a transmissão do vírus".

Ele reforça que ainda estamos vivenciando a pandemia e a Covid-19 tem capacidade de levar a óbito grande quantidade de pessoas.
"Enquanto não houver vacinação em massa seguiremos obrigados a manter as ações de controle individuais, é a única forma de reduzir a transmissão e o número de casos novos"

Diário do Nordeste

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