De Itaiçaba, até hoje na memoria do brasileiro. A história da dupla cearense Dom & Ravel

A parceria cearense que marcou o Brasil dos anos 70 com hinos ufanistas

Quem hoje está beirando as cinco décadas de vida deve se lembrar de uma dupla de irmãos cearenses que conheceu o sucesso no mundo da música nos anos 70, cantando principalmente canções de grande apelo emocional e ufanista, e que acabou caindo nas graças do então governo militar da época.

Eustáquio e Eduardo Gomes de Farias, ou melhor, Dom e Ravel chegaram em São Paulo ainda crianças, nos anos 50, vindos da pequena cidade de Itaiçaba, no Ceará. Já no final da década seguinte, tentaram uma carreira no disco e lançaram o LP Terra Boa, que trouxe o primeiro grande sucesso deles, a música Você Também é Responsável, que acabou sendo usada dois anos depois como uma espécie de hino ao recém criado Mobral – Movimento Brasileiro de Alfabetização – órgão criado no governo militar para melhorar o nível de alfabetização no país que buscava ser uma nação desenvolvida.

O fato, no entanto, não foi visto com bons olhos pela comunidade artística, que acabou taxando os irmãos de puxas-saco do governo militar, o que se agravava ainda mais com as novas composições da dupla, a maioria enaltecendo o Brasil, coisa que agradava muito aos militares do governo. São dessa fase os sucessos Obrigado ao Homem do Campo, Só o Amor Constrói, e principalmente Eu Te Amo, Meu Brasil, composta pela dupla e gravada pelo conjunto Os Incríveis.
Em sua defesa, eles diziam que nunca tinha composto uma música encomendada pelo governo, e que a apropriação de suas composições pela ditadura era feita sem qualquer consentimento. Eles só não reclamavam justamente por medo de represália dos militares. Apesar do grande sucesso entre o público em geral, os irmãos não agradavam a esquerda do país, de políticos a artistas.

Para tentar amenizar o mal-estar que essa situação gerou, a dupla compôs em 1974 a música Animais Irracionais, que criticava duramente as injustiças sociais do país, mas isso os levou a serem odiados também pelos militares e seus seguidores. No final dos anos 70, tanto a esquerda quanto a direita do país acusavam a dupla de enaltecer o outro lado.

Donos de um talento incomparável, a dupla compôs canções que ainda hoje estão vivas na memória de quem viveu aquela época, principalmente de quem era criança. Infelizmente, graças a esta suposta ligação com o regime militar, eles foram abandonados pela mídia nas décadas seguintes. Eustáquio, o Dom, morreu em 2000 de câncer no estômago. Seu irmão Eduardo, o Ravel, morreu em 2011, de ataque cardíaco.

Por Roosevelt Garcia
2 mar 2018, 12h23

Compilado de 
vejasp.abril.com.br

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