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Desde março, a única emergência psiquiátrica pública do Ceará recebe pacientes da saúde mental com suspeita de Covid-19. Em maio, a unidade criou alas específicas para acolher infectados e hoje há 16 pessoas internadas. Foto: Natinho Rodrigues

Hospital precisou incorporar médicos clínicos-gerais 24h para a demanda do coronavírus
O crescimento das infecções por Covid-19 segue demandando esforços dos diferentes níveis de atendimento na saúde no Ceará. Embora, desde o início da pandemia, o Governo Estadual tente estruturar unidades cuja finalidade é especificamente dar vazão a essa assistência, pacientes buscam diversos hospitais, ainda que a função daquele equipamento não seja inicialmente atender Covid-19. No caso das pessoas em tratamento de doenças psiquiátricas, essa necessidade já é concreta. Hoje, há seis pacientes confirmados com coronavírus e 10 casos em investigação internados no Hospital de Saúde Mental Professor Frota Pinto, em Messejana - única emergência psiquiátrica pública do Ceará.

Em março, a unidade começou a receber, de modo esporádico, pacientes com suspeita da doença. No final de maio, o hospital teve que garantir duas alas voltadas a esse atendimento.

O alto poder de contágio do coronavírus, ao afetar pacientes da saúde mental, joga luz sobre um dos dilemas permanentes desse setor específico da saúde. Em geral, os hospitais psiquiátricos têm baixo suporte para atendimento de doenças clínicas. Essas unidades, tal qual o Hospital de Saúde Mental Professor Frota Pinto, continuam em funcionamento para, sobretudo, atender às demandas de sofrimento mental, não tendo função de garantir tratamentos clínicos.

Nesta pandemia, diante da necessidade real de pacientes em crises psiquiátricas, mas que estão ou podem estar contaminados por coronavírus no Ceará, o diretor clínico do Hospital, psiquiatra Carlos Celso, conta que foi preciso incrementar a estrutura e garantir médicos clínicos-gerais 24h na unidade.

Desde a penúltima semana de maio, o Hospital tem 20 leitos para tratamento de pacientes com Covid-19 ou com suspeita. "Fizemos uma reunião de planejamento e vimos que era impossível não entrar pacientes com Covid no Hospital Mental e era impossível não haver complicações", diz ele. O médico relata que são duas alas separadas: a clínica, com pessoas em investigação, e a Covid, com casos confirmados ou "fortemente suspeitos".

"A porta de entrada do nosso Hospital é tratamento psiquiátrico. Então, não atendemos pacientes que a principal demanda seja de Covid. Atendemos pacientes psiquiátricos, que estejam com demandas psiquiátricas. Só que sabemos que, nessa situação de ampla disseminação do quadro viral da Covid, é inevitável atendermos pacientes com demandas psiquiátricas de urgência que tenham Covid. Mas que a Covid, no caso, clinicamente, não supera o risco psiquiátrico. Como assim? A emergência psiquiátrica é maior do que a emergência clínica", explica Celso. A única emergência psiquiátrica pública do Estado recebe, sobretudo, pessoas de Fortaleza e da Região Metropolitana. No entanto, pacientes de cidades do Interior também buscam atendimento. No caso das internações psiquiátricas de pacientes que também estão com Covid ou suspeita, o médico relata, sem detalhar, há pessoas também do Interior.

"O Hospital se equipou com alguns leitos com ponto de 02 (oxigênio). Estamos disponibilizando um respirador de transporte, não é um respirador de manutenção, porque no Hospital nós não temos UTI. Então, se algum dos nossos pacientes que está com Covid piorar, ele vai ser entubado, colocado nesse ventilador e transferido para algum hospital, como HGF ou Leonardo da Vinci", conta o diretor da unidade.

Evolução
Os pacientes confirmados, relata ele, ficam em observação 24h. "Eles fazem o tratamento conforme os protocolos medicamentosos estabelecidos pela Secretaria da Saúde. Eles vão sendo avaliados conforme a evolução e, em caso de piora, ele é imediatamente regulado. É colocado na central de leitos para ir para um hospital clínico que tem mais suporte que o nosso", afirma.

Além disso, há outra dinâmica que é o acolhimento de pacientes psiquiátricos que foram contaminados e receberam tratamento em outras unidades. Como exemplo dessa situação, o médico relata que o Hospital de Saúde Mental foi acionado, na semana passada, para receber um paciente oriundo do Hospital Leonardo da Vinci. "É um paciente que tinha uma demanda de saúde mental, mas a demanda da infecção por Covid era mais urgente. Precisou de atendimento, foi estabilizado, mas aí não resolveu o quadro psiquiátrico. Então, ele estava lá com o transtorno mental não 100% controlado e foi mandado para a gente". A perspectiva é que, em casos assim, o paciente possa continuar o tratamento nessa ala específica da unidade em Messejana.

Pesquisas avaliam efeitos da pandemia
A pandemia é propícia à acentuação de sofrimentos mentais. Cientes dessa realidade, profissionais do Hospital de Saúde Mental iniciaram processos de pesquisas para gerar informações sobre o atual cenário. Há quatro propostas de investigação na unidade. Duas delas focam os profissionais da saúde e o trato com esse período; outra é sobre ansiedade e depressão nos pacientes e cuidadores da unidade. A quarta investiga mudanças farmacológicas em pessoas com esquizofrenia.

Parte das pesquisas já foi iniciada. Outras aguardam autorização. Uma das ideias, explica o psiquiatra Matias Carvalho, é avaliar a possível interferência da pandemia no Estado emocional dos pacientes. Já com os profissionais da saúde, o objetivo é investigar como reagem psicologicamente à Covid-19 e de que modo elaboram estratégias de vivência desse período.

A psicóloga Ana Carla Castro integra outra pesquisa e diz que, no Núcleo de Estudos em Esquizofrenia, os profissionais têm feito um levantamento sobre cerca de 100 pacientes atendidos no ambulatório. Segundo ela, a investigação nasceu da percepção sobre um possível aumento da demanda desses pacientes por remédios. "Estamos analisando os prontuários. Olhando que tipo de medicamento aumentou e o porquê. É uma classe de medicamentos bem conhecida, os ansiolíticos como rivotril, diazepam", relata. Não há resultados ainda, e o estudo continua.


(Escrito por Thatiany Nascimento, thatiany.nascimento@svm.com.br 06:00 / 02 de Junho de 2020. Atualizado às 06:00)

Diário do Nordeste

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