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Estado teve 366 homicídios nos primeiros 25 dias do mês. Em abril inteiro de 2019, foram registrados 213 CVLIs

Conflitos entre facções se intensificaram durante crise de saúde pública
Conflitos entre facções se intensificaram durante crise de saúde pública (Foto: BÁRBARA MOIRA)

O Ceará enfrenta, além do número de mortes decorrentes do novo coronavírus (Covid-19), uma explosão no total de homicídios registrados. A última semana foi marcada pela violência em Fortaleza e municípios da Região Metropolitana (RMF). No último sábado, 25, pelo menos seis homicídios foram registrados.

Conforme O POVO publicou no último sábado, os números de assassinatos registrados entre quarta, 22, e quinta-feira, 23, foram maiores que a média registrada no Estado até então, de 12 homicídios por dia. Nesse mesmo período, foram registrados conflitos simultâneos entre facções na Grande Fortaleza. Conforme O POVO apurou, o motivo seria um "salve" da facção criminosa Guardiões do Estado (GDE) ordenando vingança pela morte de um dos seus chefes.

Foram 366 crimes do tipo registrados só nos 25 primeiros dias deste mês de abril, conforme relatório estatístico da Secretaria da Segurança Pública e Defesa Social (SSPDS). De acordo com os dados da pasta, em abril de 2019 foram registrados 213 Crimes Violentos Letais Intencionais (CVLI) no Estado.


O problema das facções no Estado não é novo e foi mais intenso entre os anos de 2016 e 2018. De acordo com especialistas, houve uma espécie de "reacomodação" no perfil dessas organizações em 2019, no que ficou conhecido como "trégua" entre os grupos criminosos. Trégua essa que era constantemente negada pelo Governo do Estado, atribuindo à repressão policial como a principal causa da diminuição da violência.

O professor do programa de pós-graduação em Sociologia da Universidade Federal do Ceará (UFC) e também pesquisador do Laboratório de Estudos da Violência (LEV), Luiz Fábio Paiva, lembra que, de fato, o Governo do Estado investiu no que ele chama de "desmantelamento na dinâmica das facções", com foco em operações policiais e medidas no encarceramento.

"Os grupos recuaram, mas essa política em nada mudou os problemas sociais ou as condições sociais que permitem ou possibilitam a existência deles", explica o sociólogo. "Houve um recuo nessa intensidade do conflito, mas já no fim de 2019 começava-se a observar uma maior inquietação em situações de acerto de contas".

Fábio Paiva destaca que janeiro deste ano já foi um mês mais violento em comparação a janeiro de 2019. Foram 192 homicídios em janeiro do ano passado contra 265 no mesmo mês deste ano, tornando-o o mais violento dos 13 meses anteriores.

Conflitos intensificados em 2020

Foi em janeiro de 2020 que ocorreu o motim da Polícia Militar, diminuindo a pressão do Estado contra as dinâmicas das facções. "Esses grupos começaram a se movimentar e realizar uma série de acertos de contas e reposicionamentos territoriais. O conflito foi intensificado", conclui.

A mudança do mapa territorial das facções é o que o cientista social e jornalista Ricardo Moura, da Rede de Observatórios da Segurança, chama de metropolização dos homicídios, quando essas ocorrências se deslocam da Capital para a RMF. O epicentro é Caucaia, com 28 dos 366 homicídios registrados entre 1º e 25 deste mês de abril, conforme relatório da SSPDS.

Moura, que também assina coluna sobre segurança pública no O POVO, destaca que a Área Integradas de Segurança (AIS) 13, que abarca os municípios de Aquiraz, Cascavel, Chorozinho, Eusébio, Horizonte, Pacajus e Pindoretama, somava pelo menos 35 ocorrências neste mês, mais de 11% dos casos (número parcial não atualizado).

Para Ricardo Moura, o policiamento intensivo em Fortaleza é um dos motivos que pode ter levado o crime a se espalhar nas áreas vizinhas. Moura concorda que o aceleramento da curva de crescimento de homicídios já era perceptível no começo do ano, em um cenário pré-motim da PM e pré-pandemia.

"O mapa de domínio territorial das facções vem se alterando (desde janeiro). É um momento de incidência para que áreas sejam retomadas e lideranças sejam eliminadas", diz. A análise é coerente com relatos de que a execução de supostos membros de facção tenha sido ordenadas do sistema prisional.

Doutora em Sociologia e pesquisadora do LEV, Celina Lima acredita que o cenário de pandemia da Covid-19 "exacerba a desigualdade social e traz mais visibilidade" a problemas da violência urbana. "A gente percebe as nossas carências de políticas públicas em saúde, educação, infraestrutura. Isso tudo fica claro e em termos de segurança pública também é assim. É o momento em que os mais pobres estão sendo penalizados", pondera.

O POVO questionou a SSPDS sobre o números de prisões e apreensões de armas e drogas durante a quarentena, além de informações sobre ações de segurança para esse período. A pasta não forneceu as informações solicitadas até a publicação desta matéria.

Por
RUBENS RODRIGUES
10:20 | 28/04/2020
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O POVO

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