"Cordel do Coronavírus", do poeta cearense Tião Simpatia, reflete sobre aprendizados na quarentena

É mais que somente um período de confinamento: com "Cordel do Coronavírus", poeta popular cearense Tião Simpatia alerta para os cuidados e novas maneiras de ver a vida a partir da situação de quarentena

Ruas e avenidas vazias, restaurantes e lanchonetes fechados, praias e parques habitados apenas pela natureza. Tem pouco menos de uma semana que o Brasil se tornou outro País devido à pandemia de coronavírus. É tempo de ficar em casa, resguardando-se da doença, cuidando de si e dos seus. Para muita gente, é verdade, tem sido desafio grande: estar confinado pode ser peleja. Mas a nova criação em versos de um poeta popular cearense bastante atento ao redor vem para dar novo sentido ao cenário.


Leia na íntegra o “Cordel do Coronavírus”, do poeta cearense Tião Simpatia
"Cordel do Coronavírus" é de autoria de Tião Simpatia, cordelista e repentista que aprendeu a ler e escrever no município de Granja, interior do Estado, justamente a partir da literatura que divulga hoje para o mundo. A mais recente produção textual sob sua pena é bastante direta: prevenção é o remédio para o combate do que nos assola atualmente. Com muita engenhosidade e senso crítico, porém, os versos ultrapassam essa questão.

"O objetivo do cordel, para além de esclarecer sobre a doença, é um convite às pessoas para fazerem uma reflexão sobre a vida, sobre o que realmente importa", explica o autor.

Resolvi fazer essa abordagem do ponto de vista poético, lúdico. É um pouco do que estou aplicando na minha quarentena, aproveitando não só para escrever e ler, mas também provocar essas reflexões na sociedade".
Tião é perspicaz: inicia descrevendo a Covid-19 "como um rastilho de pólvora" que se espalha pelo mundo e provoca o pânico. E então, estrofe a estrofe, vai somando mais camadas. Questiona-se, por exemplo: "Mas quando ficar em casa/ Não for uma opção?/ O jeito é entregar a Deus/ E pedir Sua proteção". Igualmente, faz um oportuno casamento de cuidados externos e internos. "Lave as mãos com álcool em gel,/ Ou com água e sabão!/ Também faça uma limpeza/ Na alma e no coração".

"A própria mensagem do cordel diz do desafio para combater o corona e outros males. Porque, na minha opinião, a sociedade está acometida por vários deles, bem mencionados no texto. Inclusive, torço pra que essa crise passe logo, mas pretendo levar a mensagem adiante mesmo quando ela acabar", idealiza.

FUNÇÃO SOCIAL
Desta feita, para Tião Simpatia, é época de mergulho interior e higienização total. Em semelhante compasso, o poeta ainda abraça outros pontos, chamando a atenção para mais variáveis muito importantes nesse processo. No cordel, ele evidencia a necessidade de deixar de lado as arestas políticas que polarizam a nação e pede de nós a consciência cívica de obediência às autoridades públicas.


Em certo momento, também brada:

Não espalhe Fake News,/ Isto é muito importante:/ Cheque a fonte da notícia/ Antes de passá-la adiante./ Evite aglomerações,/ Siga as recomendações/ Dos órgãos oficiais./ Foi dado o sinal de alerta/ Se fizer a coisa certa/ Protegerá seus iguais".
Na visão do autor, fortalecer essas ideias por meio da literatura de cordel vai ao encontro da função social dos textos escritos sob esse gênero. Não à toa, conforme conta, os cordéis eram conhecidos como o jornal dos sertões, pois chegavam aonde não havia televisão, smartphones e outras tecnologias, nos idos dos anos 1960 e 1970.


Segundo ele, "essa é uma literatura que tem uma grande função, diria até que na própria formação do nosso País, haja vista que veio na bagagem dos nossos colonizadores, há 500 anos, e aqui ganhou corpo, identidade própria e a estrutura básica que tem hoje. Faz parte da cultura nordestina, mas é conhecida em todo o Brasil".

Tião fala com propriedade deste último ponto, de forma particular, porque tem um texto conhecido nacionalmente e até para além dos limites tupiniquins, atestando a abrangência da arte que realiza. A estreia na literatura em versos populares se deu em 2009, com "A Lei Maria da Penha em Cordel", poema criado a pedido da cearense que inspirou a diretriz, retratando aspectos cotidianos da violência doméstica e intrafamiliar contra a mulher. "A gente já viajou bastante para outros países divulgando esse material. Foi traduzido para o inglês, espanhol, braille e, agora, ganhou uma versão em libras".

CRITICIDADE
Essa predisposição para desenvolver cordéis com temáticas sociais já é expediente comum por parte de Tião Simpatia. Para além dos já mencionados, ele ainda escreveu "O Brasil que eu quero", lançado durante a campanha homônima, em 2018; e um sobre o abraço, que convida as pessoas a praticarem o afeto. "Mas aquele era outro contexto, o abraço, neste momento, fica pra depois", observa. "Tô até pensando em escrever agora o cordel do abraço virtual, além de outros".

Até lá, é mergulhar nas urgências que "Cordel do Coronavírus" traz e ecoá-lo para todas as pessoas. De acordo com o autor, o texto é de utilidade pública, sem fins lucrativos. "Inclusive, se algum Governo ou entidade quiser reproduzir, eu libero, contanto que dê os créditos", diz.

Completa ainda informando que o planejamento é este: quando toda a problemática passar, quer fazer o lançamento, na versão impressa, de um cordel sobre novas perspectivas de vida pós-coronavírus, focando em outras reflexões sociais e humanas dentro da mesma temática.

"Quero fazer um grande trabalho de conscientização a partir de uma rede imaginária que proponho, uma rede solidária. Sugiro armá-la, ou atá-la, do sul para o norte, já que no sul estão concentrados os recursos, a maior riqueza, e que ela se espalhe de lá pra cá. Que no meio desta crise, a gente possa se balançar e a vida voltar ao normal", torce, do jeito que a gente gosta: em ritmo cearense.


Cordel do Coronavírus
Tião Simpatia
Tupynanquim Editora
2020, 8 páginas
Disponível na internet


Por Diego Barbosa, diego.barbosa@svm.com.br 00:00 / 24 de Março de 2020 ATUALIZADO ÀS 10:19
Jornal Diário do Nordeste

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